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Domingo, 22 Novembro 2020 07:39

Deficiência na rede pública de saúde mostra crianças nascendo com sífilis em Dourados Destaque

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A enfermeira Anny Danyelly e a professora Simone Simionatto, durante os trabalhos de pesquisa A enfermeira Anny Danyelly e a professora Simone Simionatto, durante os trabalhos de pesquisa Divulgação/Assessoria

Um estudo sobre sífilis e neurossífilis, realizado na Universidade Federal da Grande Dourados, demonstra que a cobertura pré-natal ofertada atualmente na rede pública de saúde apresenta falhas na prevenção das doenças e no seu tratamento, acarretando aumento no índice da transmissão de mãe para filho durante a gestação.

O problema, por sua vez, contribui para a superlotação da rede hospitalar, principalmente na área intensiva neonatal, e gera altos custos com tratamento e internação ao SUS (Sistema Único de Saúde), cenário que poderia ser diferente se fossem adotadas estratégias efetivas de prevenção a essas enfermidades.

“O diagnóstico tardio da sífilis em gestantes e o acompanhamento inadequado dos parceiros sexuais podem favorecer a transmissão vertical da bactéria Treponema pallidum – causadora da doença – em gestantes brasileiras. Assim, melhorar a qualidade dos serviços de saúde é importante para um controle mais eficaz da neurossífilis”, afirma a bióloga Simone Simionatto, coordenadora da pesquisa.

Doutora em Biotecnologia, a pesquisadora, professora da FCBA (a Faculdade de Ciências Biológicas e Ambientais) e do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde (PPGCS) da UFGD, estuda a sífilis em populações vulneráveis e desde 2013 está à frente de um grupo que pesquisa o tema em Dourados.

O estudo em questão, focado em gestantes, teve início em 2016, mas foi no ano seguinte que se desdobrou numa pesquisa com ênfase em neurossífilis, uma complicação da sífilis que surge quando a bactéria Treponema pallidum invade o sistema nervoso, atingindo o cérebro, as meninges e a medula espinhal. Essa condição leva ao surgimento de sintomas como falência de memória, depressão, paralisias e convulsões.

ALTA INCIDÊNCIA

A professora Simone explica que a inclusão do estudo sobre neurossífilis na pesquisa com populações vulneráveis foi sugerida por uma das alunas da pós-graduação que integrava o projeto. Após identificar um expressivo número de casos da complicação, a enfermeira Anny Danyelly da Costa Ribeiro, mestranda na época, se aprofundou na questão e acabou abordando o tema em dissertação. “Eu entrei na seleção do mestrado com uma proposta de estudar justamente a sífilis em populações vulneráveis. E participando de outros projetos, percebi, juntamente com a professora Simone, que não havia o acompanhamento dos bebês. Nesse sentido, entendemos que havia uma lacuna a ser preenchida”, explica Anny.

A pesquisa rendeu, ainda, um artigo científico, recentemente publicado da Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo. Intitulado “Neurosyphilis in Brazilian newborns: a health problem that could be avoided” (Neurossífilis em recém-nascidos brasileiros: um problema de saúde que poderia ser evitado), a publicação chamou a atenção de veículos nacionais de imprensa e teve repercussão em órgãos como Agência Brasil, Agência Bori (São Paulo/SP) e Rádio Nacional.

O artigo, em inglês, publicado na Revista do Instituto de Medicina Tropical de São Paulo pode ser acessado aqui

EVIDÊNCIAS VALIOSAS

A abordagem para a pesquisa foi feita junto a 63 gestantes diagnosticadas com sífilis, admitidas para o parto no HU (Hospital Universitário) da UFGD e os respectivos recém-nascidos. Entre os bebês, 12,7% tiveram complicações clínicas, como baixo peso ao nascer, e cerca de 50% tiveram de ser hospitalizados por complicações de sífilis. Cada um desses casos acarretou ao SUS um custo de US$ 881,48 em tratamento e internação, o equivalente a R$ 4.700.

Foram avaliados 21 recém-nascidos com neurossífilis e 42 com sífilis congênita, ou seja, quando a enfermidade é passada de mãe para filho durante a gestação. Das 63 gestantes, 60 receberam acompanhamento pré-natal e 47 delas somente souberam que estavam com a doença na hora do parto.

Uma questão que chamou a atenção da pesquisadora foi a baixa participação dos parceiros no tratamento. “Normalmente, as mulheres, quando recebiam o diagnóstico, reagiam com constrangimento, o que se deve ao pouco conhecimento sobre a doença e por ela ainda estar envolta em estigmas. A maioria delas não recebeu apoio dos parceiros. Prevalece uma grande resistência por parte dos homens em torno da enfermidade, o que nos leva a crer que é preciso um amplo processo de discussão com a comunidade para que a informação seja difundida”, relata a enfermeira.

Assim, sem a inclusão dos parceiros, os tratamentos que envolveram apenas as gestantes não apresentaram resolutividade, pois não houve rompimento da cadeia de transmissão e o bebê acabou sendo infectado via placenta. “É importante que as pessoas saibam que o diagnóstico precoce de sífilis durante a gestação reduz o tempo de exposição do feto ao T. pallidum, diminuindo as chances de transmissão e as complicações na gestação”, explica Anny.

PESQUISA E ESTRATÉGIA

pesquisa sifilis equipe

A enfermeira Anny e colegas do grupo de pesquisa, em laboratório: alerta necessário à Atenção Básica

Diante dos fatos observados, o estudo aponta que somente sanando as dificuldades da rede pública de saúde quanto às políticas de prevenção é que o problema pode ser reduzido. “O diagnóstico precoce da sífilis no primeiro trimestre de gestação, o acompanhamento do tratamento da gestante e do parceiro e futuros estudos para identificar as dificuldades do sistema público de saúde em realizar um pré-natal eficiente são as soluções indicadas”, afirma a professora Simone.

Ela ressalta que os serviços de saúde são essenciais para o controle efetivo da doença, oportunizando a oferta do diagnóstico e o tratamento a toda a população. Diagnóstico oportuno e tratamento adequado podem reduzir gastos com a internação dos bebês. “Se as gestantes e seus parceiros tivessem sido diagnosticados precocemente e tratados de forma adequada, evitando com isso a reinfecção, esses bebês possivelmente não teriam desenvolvido neurossífilis, forma mais grave da doença”, enfatiza a professora.

Simone diz que, estrategicamente, a pesquisa mostra o quanto o atendimento falho e a ausência de ações de prevenção acarretam custos evitáveis ao SUS. “É a universidade pública, que produz 90% da pesquisa brasileira, atuando no sentido de devolutiva para a sociedade e para os serviços de saúde. As pesquisas geram evidências relevantes que podem contribuir para a comunidade”, conclui.

A pesquisa foi desenvolvida dentro do Programa de Pós-graduação em Ciências da Saúde da UFGD, e recebeu financiamento do CNPq, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico e ainda da Fundect (Fundação de Apoio ao Desenvolvimento de Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul) e da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) do MEC.

Participaram também do estudo o médico infectologista Julio Croda, da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) e da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e as enfermeiras Cristiane de Sá Dan e Andrea da Silva Santos, ambas do HU e alunas do PPGCS na UFGD.

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