Timber by EMSIEN-3 LTD

José Vasconcellos (22)

Como prioridade inescusável, cabe ao vereador representar o contribuinte municipal ouvindo suas reivindicações, e também, com absoluta preferência, atendê-los, porque é com os impostos que ele (o munícipe) paga, que a “Maquina municipal” funciona ou pelo menos finge!

Vejamos: as calçadas de Dourados é uma vergonha: decoradas com lixo, galhos, restos de construção, mato, desníveis, obstáculos, buracos e outras barbaridades inconcebíveis. Esses pavimentos destinados aos pedestres, exigem-lhes que andem com os olhos pregados no chão, para não levar um tombo.

O desarranjo, o abandono, o descalabro, a ausência de qualquer preocupação em reparar e limpar as calçadas, em Dourados, ganha qualquer concurso. O DESCALABRO começa no centro — na zona nobre da cidade — e irradia-se como os raios do sol, para que todos vejam, avaliem, sintam na pele o desconforto e cuidem-se para não tropicar ou cair num buraco.

A pavimentação das ruas, por seu lado, apresenta-se razoável nalguns trechos e tenebrosas em outros, onde os buracos marcam maciça presença e acomodados, sem pressa, aguardam as providências da Prefeitura. O Governo do Estado, onipresente em vários pontos da cidade, entestado por vistosas placas, vem recuperando alguns trechos da malha viária, mas suas placas, pelo conteúdo informativo, parecem dizer que o Governador está fazendo o serviço com seu próprio dinheiro, quando sabemos que apenas cumpre sua função, com os impostos cobrados.

O vereador, individualmente, tem o inarredável dever de ofício de ouvir o munícipe. Sendo plausível e exeqüível a sugestão ou o pedido que lhe faz, sem sofisma ou lero-leros, justificando sua função remunerada, deve atendê-lo levando a reivindicação ao plenário para apreciação, se necessário, ou diretamente a quem responde pelo setor. E mais importante: verificar se o atendimento à pretensão do contribuinte foi feito. Não adianta apenas encenar; precisa efetivar o serviço.

Quanto as concessionárias, ganha o Oscar a SANESUL! Para atender um garapeiro, cavou uma valeta na pavimentação da rua, bem defronte à Delegacia Regional de Polícia, na rua João Cândido da Câmara. O passeio ela já remendou com massa 10 x 1; a valeta que toma toda a largura da rua, foi remendada sem pressa. Esses remendos sempre são demorados e sofríveis, como de costume. Confira na rua Antonio Emílio de Figueiredo, na confluência com a rua João Cândido da Câmara, onde deixaram um rebaixamento no remendo feito no meio da rua, que divide as águas com a sarjeta.

Diante dessa “gloriosa providência” da SANESUL, é plausível e lógico perguntar: — É razoável danificar a pavimentação urbana, que o proprietário do imóvel fronteiro pagou como Contribuição de Melhoria, para favorecer um garapeiro com sua “fita” edificada no canteiro central, livre de qualquer ônus?

E mais: — Quem autorizou a “obra”? Acredita-se que a Prefeitura não foi, porque ela não tem dado nem conta dos buracos que se multiplicam, por que autorizaria mais um, para favorecer uma invasão numa área pública de uso comum, quando metade dos imóveis da cidade estão enfeitados com uma placa “ALUGA-SE” e muitos deles, próprios para a instalação de garapeiros.

A concessionária danificou uma via pública de trânsito intenso, sem qualquer cerimônia, em benefício de um “pedido particular”. O que a SANESUL poderia argüir para justificar o “serviço”?

Comenta-se, também, o desempenho das concessionárias dos serviços FUNERÁRIOS. O abandono do cemitério municipal, tomado pelo mato e com sepulturas abertas, exibindo restos de ossadas humanas, num deprimente e acintoso desrespeito àquele irmão ali sepultado.

Assim expostos os problemas, entende-se que os Vereadores devem conscientizarem-se da função pública que exercem, e ouvir o que a comunidade deseja. Exemplificando: deseja que a circular chegue até a Estação de Embarque do Aeroporto, para atender os passageiros; deseja que os canteiros centrais sejam utilizados para estacionamentos.

Caminhamos por “calçadas” abaixo da critica, embora o custo para a Prefeitura é só a exigência legal. Olhe-se no espelho e diga o que está vendo: seria um idiota sorrindo?

* O autor é membro da Academia Douradense de Letras.
(Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.)

Quinta, 29 Março 2018 10:35

A ganância é hospedeira da pouca-vergonha

Escrito por

Temos visto na TV, reportagens que abordam e mostram os residenciais programados do tipo “Minha casa minha vida”, licitados e financiados pelo Governo federal, através da Caixa Econômica.

Nessas edificações, em pouco tempo, começaram os vazamentos de água do piso superior, umidade, rachaduras do piso e outros incômodos em quase todos apartamentos: são forros caindo aos pedaços, paredes com fissuras que assombram e tiram o sono do modesto e outrora feliz morador, que um dia viu seu sonho de possuir uma moradia, ter um endereço certo e ali criar seus filhos, com segurança. Sonho modesto sem maiores pretensões, afinal também é filho de Deus e acreditou que o Governo tinha, pelo menos, um pouco de respeito por ele.

Programada a construção do residencial, no primeiro momento, a corrupção política prontamente se fez presente. A construtora foi escolhida a dedo, no arsenal da pouca-vergonha, onde a ganância vive amancebada com o desejo de roubar — pela impressionante facilidade — o Tesouro Nacional, consubstanciado nos fundos da Caixa Econômica Federal. No segundo momento, os tratamentos criminosos para enganar o pobre brasileiro, para quem destinava-se a moradia, que, inocentemente, ainda acreditando em Papai Noel, via seu antigo sonho realizar-se. Sonho antigo, modesto. A boa nova alegrou toda a família, que via acontecer o que sempre esperaram: possuir uma casa, um teto, para acomodar a família embaixo!

A insaciável ganância, aliada à incompetência apresentaram-se de braços dados com a corrupção, e juntas, ao invés de edificar um conjunto de moradias dentro das normas de segurança e com acabamento aceitável, assessoradas pela incompetência técnica de profissionais desonestos, abusaram da dissimulação e de materiais ordinários, fora de qualquer especificação e assim edificaram “o antigo sonho do brasileiro” sobre a areia.

A quadrilha, sem nenhum percalço, favorecida pelo órgão publico financiador (a Caixa Econômica), que tinha por obrigação primária fiscalizar a obra, mas manteve-se, suspeitamente, inerte, dando segurança e tranqüilidade para os escroques consolidarem a armação arquitetada, objetivando lesarem a própria Caixa Econômica e o pobre chefe de família que, de roldão leva junto sua família, quando descobre que a morada dos seus sonhos, ameaça desabar pondo em risco a vida de todos.

Sem exceção, pelo que se tem notícia pela imprensa, todos os conjuntos habitacionais — térreos ou edifícios fracionados em apartamentos, — vêm apresentado problemas gerais que envolvem toda a construção. São problemas primários, gerados pela vontade incontrolável de um conjunto de interessados em levar vantagem sobre qualquer coisa que seja possível. É o império da pouca-vergonha aliada à criminosa desonestidade, não reprimida tempestivamente pela Justiça morosa e desarmada de uma legislação moderna, eficiente e rápida!

Os escroques que operam no território nacional perderam o medo e desdenham do trabalho da polícia, pela inoperância da Justiça, onde os réus — quase todos — gozam de foro privilegiado e estão municiados com recursos inesgotáveis, desfrutando, ainda, da suspeita simpatia de alguns Julgadores de alto coturno, que envergonham o Judiciário Nacional e provocam asco à Nação, que se sente acintosamente defraudada, constrangida e impotente

O “animus rem sibi habendi” (a intenção de ter a coisa para si), não se restringe a habitação popular, o peculato campeia com impressionante velocidade e intenção em todos os setores da administração pública, saqueando os recursos da saúde, do ensino e da segurança, provocando irrecuperáveis prejuízos ao País e à Nação, que amarga um atraso homérico, quando comparada com o desenvolvimento intelectual de outros países.

Para o larápio do dinheiro público — o peculatário — ninguém, por mais miserável que seja, não precisa de assistência médica, de escola, de segurança e, sobretudo, de comida. Ele precisa de tudo. De tudo para si, é o “animus rem sibi habendi” (o desejo de ter a coisa para si) e o resto que se “sbore” (arrebente-se) como dizia minha avó, no seu dialeto vêneto.

* O autor é membro da Academia Douradense de Letras.
Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo..)

Sexta, 09 Março 2018 17:41

A Mosca Azul e a Febre Amarela

Escrito por

Febre amarela – doença infecciosa transmitida ao homem por mosquitos, que ocorre em regiões tropicais e subtropicais da África e da América. É uma doença infecciosa febril aguda, causada por um arbovirus (vírus transmitido por atropodes) que pode levar a morte em cerca de uma semana, se não tratada rapidamente.

Os casos de FEBRE AMARELA no Brasil são classificados como FEBRE AMARELA SILVESTRE ou FEBRE AMARELA URBANA, sendo que o vírus transmitido é o mesmo, assim como a doença que se manifesta nos dois casos. A diferença entre elas é o mosquito vetor envolvido na transmissão. Na SILVESTRE, os mosquitos são do gênero “Haemagogus e Sabethes”; na URBANA, o vírus é transmitido pelos mosquitos “Aedes aegypti”. (Google, Portal do Governo).

Recentemente, surgiu, na zona urbana, uma terceira cepa da FEBRE AMARELA, esta transmitida pela MOSCA AZUL. Não é infecciosa e tampouco febril, provoca, não obstante, males piores porque envolve a sobrevivência de muitas pessoas. Essa “febre” vem personalizada com euforia na ganância, mandando às favas todas as convenções sociais que regem a moral entre pessoas civilizadas. Essa “febre” também é conhecida por CARTEL, atividade escusa que se movimenta como serpente, sorrateira, empenhada em eliminar a concorrência, mostrar os dentes e estabelecer seus preços.

Para essa “febre” provocada pela MOSCA AZUL não há vacina, a cura é feita com a segregação do paciente numa jaula. Esclarece o Google à pergunta: “Qual a lei que define o Cartel como crime econômico?” A resposta: “Cartel – TJDFT - Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios – 27 de nov., 2015 - Além de crime o cartel também possui proibição administrativa, a lei nº 12.529/11, que trata da estrutura do Sistema Brasileiro da Concorrência e dispõe sobre a prevenção, repressão às infrações contra a ordem econômica e descreve em seu texto todos os atos que implicam na formação de...”

A picada da MOSCA AZUL provoca no “paciente” pouco conhecido no local onde atua: cegueira e surdez, dirimentes utilizados pela mente doentia, para encobrir o remorso pelos estragos que causa. Evita que “o coisa” ouça os lamentos daqueles que ficaram sem o pão que ele, por puro egoísmo, arrebatou-lhes.

A Febre Amarela resultante da picada da MOSCA AZUL, que modifica o caráter do sujeito, não é tida como infecciosa febril aguda, para ela não há vacina. O remédio recomendado para a cura do “paciente” é o cárcere, com o reforço das multas, para que tenha repouso mental, ou morra pela frustação. Essa febre que a mosca provoca, transforma uma pessoa normal numa “coisa” soberba, insaciável, egoísta e agressiva; inteiramente alterada com seu procedimento esdrúxulo. Apenas a jaula cura os sintomas da Febre Amarela, resultante da picada da mosca, a MOSCA AZUL! É o que atesta a benzedeira, dona Maroca, que também atende por dona Preta.

O AMARELO (a cor) irradia-se e propaga-se em cada esquina, em cada rua, ofuscante e onipresente. Em qualquer direção, o olhar defronta-se com o amarelo! O amarelo agressivo, incontrolado e faminto, que vem devorando a concorrência modesta, frágil, inibida e desarmada, que oprimida, debanda silenciosa. Órfã dos direitos que, tempestivamente, não invocou em sua defesa e tampouco foi socorrida “sponte sua” por aqueles que, por dever de ofício, são obrigados a combater os ânimos da ilegalidade, sofre as conseqüências funestas da sua imobilidade.

Em nome da sofrida e gloriosa história da nossa gente douradense, não se pode perder aqui a oportunidade de mandar um saudoso e reconhecido abraço, para os pioneiros que se levantavam nas madrugadas com uma lamparina, para atender algum cavaleiro desesperado, que precisava de ajuda para sua esposa, parturiente, que o esperava em casa, lá longe, no meio do nada, sob as estrelas do céu!

Para esses homens que ajudaram a construir nossa cidade, num tempo em que a solidariedade falava mais alto que o dinheiro, vai o nosso saudoso e fraternal abraço, com muito carinho, para os inesquecíveis cidadãos Arnulpho Fioravanti, Caramuru de Souza Mota, Milton Rocha, Dr. Wolfgang Herzog e o “seo” Nhonhô Rocha, aquele da Popular, inaugurada há quase 70 anos. Certamente há alguns outros aqui não lembrados: para esses, ainda temos muitos abraços e congratulações em estoque.

Lembremos do que o presidente Abrahan Lincoln (1809-1865), disse: “Você não pode enganar todas as pessoas todo o tempo”.

* O autor é membro da Academia Douradense de Letras (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.)

Quarta, 14 Fevereiro 2018 18:44

Quando rir é melhor do que impressionar!

Escrito por

Madrugada, o repórter parecia não ter ainda acordado por inteiro, para apresentar o primeiro jornal do dia na TV. Demonstrando desinteresse e alheamento no que dizia, ameaçado por um bocejo, informa com voz cansada e fanhosa: “— Que fulano de tal (omitiu, deliberadamente, o nome do finado, em respeito à sua família), importante industrial brasileiro, investidor em grandes obras e político de muitos mandatos na Câmara federal, encontrado morto no quarto de um luxuoso hotel, na capital federal.

Informadas, as autoridades policiais do evento descoberto pelo mordomo do parlamentar, o Carlinhos, compareceram no luxuoso apartamento do hotel, onde o político e empresário dormiu sua última noite, antes de partir para o além. Investigadores, médicos legistas, peritos criminais e por fim, a polícia militar que também chegou, para isolar a área e importunar os demais hóspedes, ainda vivos, arranchados no hotel.

Os agentes públicos munidos de equipamentos, tais como lupas e outras bugigangas correlatas, assessorados por policiais fortemente armados, acompanhados por cães treinados para farejar coisas mal feitas, todos prontos para encetar os mais completos exames no cadáver e no local, na busca de pistas ou algum indício de algo, que pudesse ter concorrido para a morte do ilustre e popular político, que deixa esposa, filhos, netos e até bisnetos e ainda, milhares e milhares de eleitores, que o acompanharam durante anos e anos, reelegendo-o cegamente, sem receber nada em troca pelo apoio decidido e sem compromisso, que deram ao “querido, respeitado e já saudoso político!”.

É da índole do eleitor pobre e cultura rudimentar nunca sonhar, pela elementar incapacidade de pensar e, por conseqüência, não conseguem escalar os valores sociais, para ter uma vida melhor. O mal mais marcante no seio da pobreza, é votar por votar, induzidos por promessas de escroques cretinos e hipócritas, sempre candidatos a novos mandatos, sem nunca explicar o que fizeram nos mandatos anteriores.

O desvalido eleitor nunca cobra um compromisso do político, como a reciprocidade: vai o voto e vem saúde, educação e segurança. Nunca volta nada, além das notícias de que elegeram um corrupto. Eleito, o político apenas exerce a corrupção, para alimentar a própria ganância. Os simplórios alienadamente e indevidamente votam naqueles que os mantém e sempre os manteve, no estado miserabilidade trágico e funesto para si e sua família. Trava o desenvolvimento dos setores sociais e impede que o País avance para redimir, definitivamente, a pobreza.

Chega a ambulância, os médicos, os peritos e os investigadores liberam a remoção do corpo do velho e conhecido político. Os médicos acompanham o corpo até o IML, para autópsia, que deverá ser executada com cuidados especiais, porque o “presunto” — também especial — pode transformar-se numa bomba!

A notícia do falecimento do deputado chega ao plenário da Câmara e interrompe a sessão. Os mais afoitos tomam a palavra e rememoram: “os grandes feitos” do finado, agora já lembrado como saudoso e incomparável homem público!”. Alguns vertem lágrimas; outros regozijam, pela abertura do espaço para um novo candidato.

Peritos e investigadores continuam no apartamento do hotel, atrás de pistas. Depois de escarafunchar aqui e acolá, encontraram uma boa quantidade de pó branco, parecido com bicarbonato. O investigador policial e o perito criminal entreolham-se, coçam o queixo e vão embora. Enquanto isso, um médico novato, desavisado e inocente, que presta serviço no IML onde já está o corpo, olha o cadáver do político e observa que as fossas nasais do finado estão tomadas por um pó branco e comenta: “— Caramba! Esse cara está com o focinho entupido de cocaína. Morreu por OVER DOSE!”

Ao comentar o que observou, o médico novato é prontamente repreendido pelos colegas calejados, encarregados da autópsia, que acabavam de chegar: “ — Nenhum pio sobre o que viu neste cadáver! Entendido?”

No dia seguinte, o mesmo repórter, na TV, atentado pelo incontrolável bocejo matinal, tropicando nas palavras, informa: “— Ontem noticiamos o falecimento do deputado “Fulano dos Anzóis”. O cadáver não apresentava nenhuma lesão e sua morte é um mistério! O laudo do IML sai em trinta dias! A polícia continua investigando...”

Agora, a preocupação do Parlamento é tão só colocar o nome do finado, montado numa mirabolante estória, numa rua ou numa praça. Aquele ilustre homem público, não pode ficar esquecido!

Arre égua!

* O autor é membro da Academia Dopuradense de Letras. (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.)

Quarta, 07 Fevereiro 2018 09:23

Lembre-se: Sem os dois lados, nada acontece!

Escrito por

Todos os dias, todas as horas, ouve-se notícias sobre o tráfico de entorpecentes. São toneladas de maconha, de cocaína e outras porcarias, nativas ou alienígenas, apreendidas pela polícia. Sucedem-se os tiroteios entre os traficantes e a polícia, que busca reprimir o tráfico; e entre os próprios traficantes, que disputam o espaço para comercializar suas porcarias. No meio do conflito, como mortadela em sanduíche de pobre, os moradores são acossados por balas “perdidas” que vêm dos dois lados.

À sombra dos acontecimentos, a sociedade acusa os traficantes, como se eles fossem os únicos culpados, os únicos bandidos nesse comércio sujo, truculento e funesto. Na esteira desse amaldiçoado comércio, muitas desgraças acontecem: bandidos executam bandidos. Bandidos executam policiais que, como os demais membros da sociedade, são chefes de família. Pessoas que dão ou deram a vida, durante anos e anos, para proteger a sociedade, em troca de salários aviltantes.

No dia a dia, caminhando ao lado desses acontecimentos, o noticiário refere-se tão só aos traficantes, nunca sobre os consumidores das toneladas de cocaína e outras porcarias de custo elevado, que uma parcela privilegiada da sociedade consome. Esses graúdos só viram notícia, quando partem ao encontro das estrelas, montados numa OVER DOSE.

No esgoto dos grandes negócios do tráfico, bancados pelos usuários abastados, são defecados nas ruas, sem constrangimento, toneladas de “Crack” (droga degenerativa de baixo preço), para o consumo de milhares de viciados, que vivem nas ruas. Essa escória de usuários, morando nas calçadas, assaltam, roubam e furtam até as bolsas das velhinhas que vão à missa, para comprar a droga. A origem e os fornecedores das porcarias, sempre, são os mesmos: no atacado e no varejo!

Entenda, que se há uma grande produção de alucinógenos, é porque há uma multidão de consumidores. A atividade que movimenta elevadas somas, representa negócio vantajoso, que enriquece rapidamente quem dele participa. Observe, mais, que esse negócio (o tráfico) é mantido por quem possui capacidade financeira e logística para movimentar o espúrio comércio. Esses escroques traficantes, são competentes no que fazem. Enrustidos no seio da alta classe social, fornecem o que ela pede. Que testemunhem os “Escadinhas”, os “Marcolas” e os “Beira-Mar” da vida, para confirmar o que rola pelos túneis da pouca vergonha e da hipocrisia, que vai desaguar nos lares, aliciando os jovens, para levá-los para as ruas como escravos do vício e a serviço do crime.

Outro assunto que também freqüenta os noticiários, é o roubo de cargas, os assaltos, que ocorrem nas rodovias. O número desses assaltos orquestrados por organizações criminosas é assombroso. Empresas que possuem condições estão despachando suas mercadorias por avião, para safarem-se das quadrilhas que infernizam as rodovias brasileiras. Quando a polícia desbarata uma quadrilha, duas outras surgem. E qual é a mecânica que catapulta esses assaltos? Claro! É a RECEPTAÇÃO praticada por comerciantes desonestos, que se beneficiam com o crime.

Tal e qual no caso dos alucinógenos, a imprensa detém-se no assaltante do caminhão, esquecendo-se que sem o receptador -- muitos deles graúdos -- não haveria interesse em roubar a carga, já que não teriam para quem vendê-la.

Nesses dois casos: O TRÁFICO DE ENTORPECENTES e o ROUBO DE CARGAS DOS CAMINHÕES, sem a participação dos viciados (no caso dos entorpecentes) e dos receptadores (no caso das cargas dos caminhões) não haveria a prática dos crimes, por absoluta falta de interesse: o negócio não atrairia quem quer ganhar dinheiro fácil!

Com suporte na lógica, seria de todo interessante que a imprensa passasse também a interessar-se pelos graúdos, que sustentam o tráfico das drogas na alta sociedade; assim como atacar e denunciar os receptadores das cargas roubadas, já que sem eles não haveria o crime.

O mundo gira em cima de interesses. Há pessoas que vendem, há pessoas que compram e há pessoas que permutam; há também gente que se vende, envolvendo no negócio os interesses e o bem estar de outras pessoas, movidos pela ganância e pela corrupção.

O tráfico de alucinógenos e o roubo de cargas, movidos pela hipocrisia e a corrupção, andam de mãos dadas, mas a imprensa tem enxergado tão somente a face do traficante e do ladrão das cargas.

Mas... e o resto? Né, não!

* O autor é membro da Academia Douradense de Letras. (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.)

Resignado “é aquele que se submete, pacientemente, a uma força superior”. O homem, açoitado pelas roubalheiras, batido, incrédulo, esmorecido e sem nenhuma esperança, resigna-se: “queda-se resignado tal e qual o porco em chiqueiro de frigorífico, que impotente ouve, sem poder fazer nada, os gritos dos companheiros sendo abatidos”.

No Brasil, a corrupção que embala no seu regaço a assombrosa ladroagem do dinheiro público, em volume inimaginável, causa à sociedade um prejuízo equivalente a drenagem total do sangue de um corpo humano. Esse crime premeditado, dissimulado e renitente, devora a saúde pública, o ensino, a segurança e o desenvolvimento do País.

A corrupção, mãe de todos os males do subdesenvolvimento,
impede que se implante a infra-estrutura necessária para o desenvolvimento do País, indispensável para que os anseios populares sejam atendidos, melhorando a vida de cada um e fomentando as atividades econômicas, para que funcionem a contento, gerando empregos e os impostos, indispensáveis para que o País funcione como Democracia.

O desarranjo no serviço público promovido pela falta de honestidade, impede a conclusão das obras que se arrastam movidas por aditivos que encarecem o contrato e tem como objetivo apenas “legalizar o roubo”. Construções implantadas ao arrepio do que foi licitado, com valores majorados para atender a “fome por dinheiro” da corrupção ativa e passiva, inconclusas e abandonadas, viram escombros com o correr do tempo, somando o prejuízo de não servir para nada, além de propiciar negociatas entre políticos e empreiteiras.

A polícia investiga, o Ministério público denuncia, o Judiciário julga e condena, a Mídia mostra tudo em detalhes coloridos, inclusive os ladrões sempre negando o desfalque, dizendo-se inocentes, colocando-se a disposição para qualquer esclarecimento, franqueando as contas bancárias, às vezes até chorando, ou invocando os netos como fez o rei dos reis do PT, em entrevista com o juiz federal Sérgio Moro, nosso herói nacional. Como já escrevi em outro artigo: “— Você acha que é necessário perguntar à raposa, para saber-se quem comeu as galinhas?”, temos ainda, que ouvir as “chorumelas” de advogados contratados a peso de ouro, dizendo bobagens em defesa dos escroques que patrocinam, pensando que somos todos idiotas.

O certo é que, a despeito disso e daquilo, os corruptos continuam operando, sem temer qualquer ação da polícia. Todos os dias temos fatos novos, envolvendo políticos e funcionários públicos. Quase todos os dias centenas de policiais estão na rua a procura de corruptos, munidos com mandados de busca nos “mocós” onde as provas dos crimes são arquivadas. No caso do Gedel Vieira Lima, no “mocó” foi arquivado dinheiro vivo, num montante apreciável, que deixou até a polícia encabulada.

O tempo passa... assistimos todos os dias Deputados e Senadores amontoados diante das respectivas mesas dos presidentes do Parlamento, cochichando espertezas. Em nenhum outro lugar do mundo os componentes de colegiados, tem procedimento igual. São surdos aos oradores e alheios aos interesses dos eleitores que os escolheram e arcam com o custo das mordomias.

As reformas necessárias e indispensáveis para que o País caminhe em segurança, com um futuro previsto para o povo, são desvirtuadas ou engavetadas atendendo interesses próprios ou ensejando proteção a sindicatos ou a órgãos corporativos — um e outro — nefastos aos interesses sociais.

A corrupção oficial beneficia-se da ignorância do povo que ela cultiva com empenho, quanto não propiciam os meios necessários e indispensáveis para que as crianças e os jovens tenham ensino em prédios escolares decentes e professores a altura e com salários compensadores. Para o ensino, o que fazem, é roubar até a merenda escolar.

E o tempo passa...as misérias perpetuam-se, enquanto alguns “experts” discutem por dezenas de anos a fio, a implantação de uma Ferrovia ou a ampliação de um aeroporto que venha beneficiar nossa cidade.

Diante do que se escreveu, conclui-se que estamos como os porcos no chiqueiro do frigorífico, impotentes, ouvindo o trovejar da miséria, quando os renais morrem à míngua de assistência e uma multidão de jovens analfabetos, que têm como única opção de trabalho, o tráfico de entorpecentes! Tudo sob a batuta do desmando, da incompetência e da falta de honestidade que se avolumam, sem receio de um possível confinamento numa jaula, como previsto na lei.

* O autor é membro da Academia Douradense de Letras (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.)

Sábado, 06 Janeiro 2018 10:10

Não comigo, estou fora !

Escrito por

No Estado do Rio Grande do Norte, onde os moradores de Mossoró nunca desejam Feliz Natal para ninguém, coincidentemente, em Natal, as Polícias civil e militar, assim como os Bombeiros estão em greve, permanecendo nos quartéis. A greve é a forma que encontraram para protestar contra o não recebimento dos salários de novembro, dezembro e o décimo-terceiro.

Policiais e Bombeiros são pessoas comuns, membros da sociedade que possuem famílias para sustentar. Eles têm despesas com alimentação, com moradia, contas de luz, de água e precisam ainda, comprar o material escolar para os filhos e, mais: para tratamento dentário, compra de calçados e de roupas para toda a família, além de outros encargos que devem ser satisfeitos, para que não sejam alcunhados como vigaristas -- o que seria um contra-senso -- porque eles têm a função de garantir a paz social e devem, em qualquer circunstância, ter conduta exemplar. Eles são o espelho no qual se reflete a sociedade!

Pois bem, sem as condições básicas para viver – não receberam os salários – ainda tem a greve condenada pela Justiça, que além do mais ainda prescreve que os policiais que não entrarem, imediatamente, no serviço serão presos(!?)

Por onde, neste País chamado Brasil, anda a EQÜIDADE, que deve, em qualquer circunstância, nortear a caneta do magistrado? Eqüidade, sabe-se: “Princípio de justiça fundamentado na igualdade de direitos. Caráter do que é feito com justiça e imparcialidade”.

Os policiais do estado “Potiguar” (Potiguar, do Tupi: o que come camarão), que nem dinheiro têm para o feijão, porque não receberam os salários, exibiram fardamento puído, coletes vencidos, armamento e viaturas sucatadas -- carências que somadas -- inviabilizam o trabalho na segurança pública.

Tudo o que mostraram não foi o bastante, para despertar no Magistrado, “o princípio de justiça fundamentado na igualdade de direitos”. Outrossim, o que pode ser facilmente comprovado, é quando se busca alguma notícia de que os juízes, desembargadores e ministros entraram em greve, por falta do pagamento dos seus proventos. Ou mesmo o governador Potiguar e seus secretários; os deputados, prefeitos e vereadores; assim como o pessoal do Tribunal de Contas. Enfim, a carência de recursos públicos nunca afeta essa classe que recebe, religiosamente, polpudos salários! A abstinência sempre é imposta à classe mais carente, que percebe salários aviltantes, com a desculpa de que não há recursos para o pagamento.

O princípio da EQUIDADE, no Brasil, em quaisquer dos estados da Federação, é observado tão-somente para os graúdos, que mandam e desmandam nos Cofres públicos. Para os pequenos, o conceito que orienta os “grandes” que vivem dentro dos Cofres, alheios às necessidades do funcionário de modesta categoria, é que se lasquem, sinônimo de explodir. Dizia minha avó no dialeto vêneto, diante de qualquer contratempo: “che se sbore!”, que eu entendia como: “que se arrebente!”

O governo Potiguar não propicia condições para que o funcionário sobreviva como cidadão, em condições normais porque, irresponsavelmente, não lhe paga o salário; e mais, não lhe fornece os meios para a execução da tarefa, como viaturas, armamento, coletes e outros itens indispensáveis para o trabalho, figurativamente é como exigir que um aleijado vença a maratona.

Os policiais e os bombeiros são, covardemente, atacados nos dois flancos: não recebem os salários; não dispõem de meios para executar o trabalho e, ESTRANHAMENTE, são condenados à prisão (?), por magistrados que desconhecem o que seja EQÜIDADE.

Devemos solidariedade a esses desvalidos funcionários da segurança pública em Natal, no Rio Grande do Norte, vitimados por aqueles que aos domingos, com as caras untadas com óleo de peroba, vão à missa ou ao culto evangélico, pedir - não se sabe o que - a Deus.

Junte-se ao que foi escrito, a figura do político ladrão e o eleitor desavisado, ignorante ou mal intencionado que dá seu voto em troca de alguma porcaria, condenando a sociedade a passar largo período por privações na saúde, na educação e na segurança. Sem o voto do eleitor irresponsável, nenhum político chega ao cofre do País, do Estado ou do Município.

O covarde mente, com descaramento, diante do problema que ele mesmo criou e para disfarçar sua covardia, apela para qualquer expediente, por mais escroto que seja!

* O autor é membro da Academia Douradense de Letras. (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.)

No livro “Pescador de Sonhos”, ed. UFMS, 2006, que registra as memórias do saudoso governador Pedro Pedrossian (1928-2017), do qual recebi um exemplar em 11-05-06, com atenciosa e longa dedicação, nele, às págs. 246/7, podemos ler: “Quando estudante, ao tomar conhecimento de que Jânio nascera na minha cidade, Miranda, e lecionara no Mackenzie, despertou uma natural identificação; participei, então, de sua campanha e da sua eleição vitoriosa para a prefeitura de São Paulo.”(sic)

“Embora figure na história que ele é campo-grandense, Jânio Quadros nasceu em Miranda, em 1917. Minha mãe confirmou a versão, pois estudara com a mãe do candidato. Mais: verificou-se ainda que Jânio nascera na chácara Jambeiro, hoje integrada à minha propriedade, a fazenda Petrópolis” (sic)

“Gabriel, seu pai (...) passou a morar em Miranda, montando uma pequena farmácia e um jornal(...) A família se mudou para Campo Grande, depois para Curitiba e, por fim, para São Paulo. Jânio tinha, então sete anos de idade.” (sic)

“Quando se lançou candidato à presidência da República, em 1960, voltei a vê-lo. É que Jânio visitou Campo Grande, viajando de trem...” “Em determinado período tornamo-nos amigos e, mais de uma vez, o visitei em sua residência, em são Paulo (...) Recebi duas telas pintadas por ele, bonitas, que refletiam sua tristeza interior. Comunicava-se com auxiliares de governo, ou com amigos, com os seus famosos bilhetes.” (sic) Sua caligrafia, ilegível, assimilava-se aos hieróglifos dos egípcios!

“Jânio continuou nos prestigiando com sua honrosa amizade e se excedeu quando visitou minha mãe, recém-operada... No deslocamento da sala de operação até o apartamento, empurrou a maca, com muito afeto e carinho, pelos intermináveis corredores do hospital.”

Até aqui tivemos o testemunho do saudoso governador Pedro Pedrossian, que conheceu Jânio Quadros (1917-1992), partilhou com ele o berço de nascimento em Miranda e, durante longo tempo, manteve estreita amizade com o ex-presidente, tudo conforme lembrado no seu livro de memórias.

Eu ainda adolescente, morando na cidade de Promissão (SP), tinha pleno conhecimento do desempenho político-administrativo do então prefeito de São Paulo, pelo PSB, Jânio Quadros, através dos relatos do meu saudoso tio Américo — janista juramentado — que morava em S. Paulo. Ele nunca se cansou de elogiar o desempenho de Jânio, como prefeito da capital paulista.

Como prefeito de São Paulo, Jânio fez publicar uma lei, que impunha às pastelarias a obrigação de colocar uma azeitona em cada pastel. Aos donos de bar, a obrigação de manter um “Restroom”, “Water Closed”, ou, simplesmente, um “Banheiro”, para uso dos freqüentadores.

Percebendo que funcionários da Prefeitura utilizavam-se dos veículos do município para descerem para as praias de Santos, nos finais de semana, passou a cercá-los, pessoalmente; determinou, depois, para melhor identificá-los, que fossem todos pintados de amarelo.

Mostrou trabalho, competência e honestidade a toda prova. Como prefeito, deixou a cidade modernizada, limpa, dinheiro em caixa e livre de funcionários fantasmas. Elegeu-se, em seguida, governador do Estado de São Paulo. Ainda sem idade para votar, participei das manifestações nas ruas de Promissão (tenho a foto) pela segunda vitória acachapante do político Jânio Quadros.

Aprovou seu Plano Trienal de Governo e deu celeridade à sua meta administrativa. Seu Secretário de Fazenda, Carvalho Pinto, cognominado “O Mago das Finanças”, viabilizou os recursos necessários. O Plano Trienal englobou as obras projetadas e fez minguar as discussões. Aprovado no atacado, o Plano foi inteiramente executado pelo governador Jânio, que tinha pressa!

No curto período de quatro anos, construiu escolas, asfaltou rodovias, moralizou o serviço público. Saia pessoalmente à noite, para correr as Delegacias de Polícia, para saber se o delegado de plantão estava no serviço. Os funcionários públicos tinham pavor do governador, que “não dormia” em serviço e gostava de conferir tudo pessoalmente. Como governador, sua obra foi memorável. Seguiu-lhe os passos Carvalho Pinto, que o sucedeu como governador.

Nas eleições para a presidência da República de 1960, Jânio concorreu como candidato, com Marechal Teixeira Lott (1894-1984). Para essa eleição, fui requisitado pelo Cartório Eleitoral da comarca de Dracena, para trabalhar como Secretário na Seção Eleitoral no distrito de Iandara. Lembro-me ainda, do comentário do mesário: “—Esta nossa seção é de poucos eleitores e de pouca importância, mas daqui podem sair os votos que elegerão o presidente! Ali Jânio recebeu o meu primeiro voto e elegeu-se presidente da República Federativa do Brasil.

Na presidência da República, onde permaneceu poucos meses, Jânio revelou-se um enigma, até hoje não decifrado.

* O autor é membro da Academia Douradense de Letras (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.).

Sexta, 13 Outubro 2017 14:34

Não era briga de gatos…

Escrito por

Há muito tempo, quando eu era relativamente jovem, trabalhei numa fazenda com uma turma, tirando dormentes para a Estrada de Ferro. Naquele tempo, ainda com o cheiro do diesel e dos cadáveres que emanavam dos campos de combate da II Grande Guerra, há pouco terminada, não se encontrava trabalho em qualquer atividade; restou, como única opção tirar e lavrar os dormentes, atividade pela qual agradecíamos a Deus, por poder ganhar aquele dinheirinho para comprar alguma comida.

A turma de trabalhadores da qual eu fazia parte, era bastante unida e divertida e no meio dela havia três portugueses com suas estórias e seus indisfarçáveis sotaques lusitanos. A cada duas semanas levantávamos o acampamento montado no meio da mata e íamos para casa. Terminado o recesso de três dias, voltávamos para o acampamento para reiniciar o trabalho. E assim corriam os dias sob o barulho das machadadas e das risadas estridentes dos companheiros. Naquele tempo ainda não tinham inventado as moto-serras!

A guerra tinha queimado todo o petróleo extraído nos sete anos que durou (1939/1945) e os caminhões e qualquer outro veículo eram movidos a gasogênio (aparelho instalado nos veículos, para transformar madeira ou carvão vegetal em gás, usado como substituto da gasolina). Esses caminhões, com capacidade para pouca carga, vinham, periodicamente, buscar os dormentes.

Os motoristas desses diminutos caminhões movidos a gasogênio representavam para nós, que vivíamos a maior parte do tempo como índios, no meio do mato, figuras exóticas e interessantes, que despertavam curiosidade e uma ponta de inveja pela liberdade que eles desfrutavam. Aqueles homens trajando macacões sujos de graxa e carvão, sempre sorridentes, contando estórias de acontecimentos que diziam ter presenciado nas viagem que faziam, desfrutavam de especial atenção de todos nós.

Gostavam de conversar com a turma, no pouco tempo em que permaneciam no acampamento. Quando partiam, pareciam constrangidos em deixar aquele local tranqüilo e silencioso onde por horas contavam suas estórias, despreocupados e alegres. Para nós, contudo, parecia que estávamos perdendo algo com a partida dos caminhões, às vezes nossos espíritos, como viajantes clandestinos, embarcavam em cima dos dormentes que os caminhões levavam, e ali seguiam como as brisas das madrugadas. A imaginada viagem, fugaz e gratificante, rendia-nos novos alentos, para o trabalho.

Assim, por um largo período, foi a minha vida naquela fazenda no meio do nada, convivendo com os companheiros de trabalho. Nada de novo acontecia, além da ida para casa por três dias a cada duas semanas de trabalho e a chegada e partida dos caminhões. Numa dessas idas para casa, na volta um dos portugueses, o Joaquim, trouxe consigo uma gata preta. Era um animal bastante dócil com seu dono, mas em relação aos demais companheiros de trabalho, era arisca. Todas as tardes era comum ver a gata no colo do seu dono, com quem se dava muito bem.

Além da novidade registrada com a chegada do Joaquim com sua gata, o restante continuava tudo igual. Numa madrugada, enquanto todos dormiam, ouvi da gata um gemido, um lamento, um verdadeiro grito de dor que bateu fundo no meu peito. Passei a mão na espingarda e sai do acampamento já tendo como companhia o Joaquim, dono do animal, atrás de mim balbuciando palavras ininteligíveis.

Já fora, ainda no lusco-fusco da claridade matinal, vi uma onça jaguatirica atacando a gata, que tomada pelo pavor clamava por clemência. A onça, com um golpe, estraçalhou-lhe a barriga, por onde fluíram seus intestinos. Era um quadro aterrador, embora envolvesse apenas uma gata como vítima do ataque de outro felino, mas a gata preta era a coisa mais querida do companheiro de trabalho, o Joaquim, que ficou profundamente consternado com o que acontecia.

Cobri a onça na mira e mandei chumbo, ela deu um pinote e caiu mortinha. Corremos para a gata e tivemos que sacrificá-la, seu estado era lastimável e irreversível. O Joaquim estava transtornado e eu, verdadeiramente, encabulado. Já tinha ouvido os lamentos dos gatos antes e durante suas brigas, mas como um pedido de socorro, como aquele que a gata do Joaquim deu, nunca tinha ouvido. Confesso: fez-me arrepiar pelo gemido que ela deu, recheado de medo e pavor da onça que a ameaçava e depois atacou.

Aquele acontecimento revogou toda a alegria do Joaquim, até então conversador e contador de “causos” do seu Portugal. Ainda hoje, já passados tantos anos, parece-me ouvir no silêncio das madrugadas, aquele pedido de socorro desesperado e triste daquela gata.

O autor é membro da Academia Douradense de Letras. (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.)

Quarta, 11 Outubro 2017 09:17

DOURADOS - MATO GROSSO DO SUL

Escrito por

A origem do termo Mato Grosso é incerta, acredita-se que seja originária da palavra guarani kaagua´zu (kaa bosque, mata e Guazu grande, volumoso), que significa, literalmente, Mato Grosso.

O povoamento: A ocupação humana do estado de Mato Grosso do Sul iniciou-se por volta de 10.000 anos A.C. através dos primeiros habitantes indígenas, ancestrais dos ameríndios contemporâneos Guaranis, Terenas, Kaiuás e Caiapós, tendo, através dos anos, novos povos estabelecidos na região, como, por exemplo, os Ofaiés.

Os primeiros europeus: A partir do descobrimento da América, iniciou-se uma corrida para esta região, após a descoberta da riqueza do Império Inca, no Peru, por Pascual de Andagoya.

Em 1510, Juan Diaz de Solis tentou alcançar o Império Inca pelo estuário do Rio da Prata. Fracassou! Em 1524 foi a vez de Aleixo Garcia, um português sobrevivente da expedição Solis. Seguindo a lenda do “Rei Branco” contada pelos índios guaranis quando acompanhavam Solis. Aleixo Garcia passou dez anos juntando homens e recursos para visitar o território. Foi o primeiro europeu a pisar no solo sul-mato-grossense, alcançando o Rio Paraguai e chegando à região onde hoje está a cidade de Corumbá. Sua missão não chegou ao fim, foi assassinado por índios no território paraguaio.

Foi Francisco Pizarro quem conquistou e destruiu o Império dos Incas que foi alcançado vindo pelo norte, não pelo estuário do Prata como tentaram Solis e Garcia. Outros que estiveram na região de onde está hoje Corumbá foram: Juan Ayolas (1537/1538), navegando o Rio Paraguai, que denominaram “Puerto de los Reys” a Lagoa Gayva. Entre 1542/1543, por ali andou Álvar Nunes Cabeza de Vaca a caminho do Peru. Outro visitante foi o governador de Assunção, Domingos Martinez de Irala.

Em 1579 foi fundada a comunidade de Xerez, nas proximidades dos rios Miranda e Aquidauana. Esse povoamento foi destruído pelos índios Guaicurus. Na década de 1610 uma missão Jesuítica já se expandia de Assunção, no Paraguai ao sul de Mato Grosso, tendo aldeado as comunidades indígenas do Itatim em território sul-mato-grossense. Essas missões foram destruídas pelos bandeirantes, com apoio de Antônio Raposo Tavares, em 1648.

Grande parte da região do atual Mato Grosso do Sul era conhecida pelo termo guarani itatim (pedra branca). No local houve duas reduções (missões) jesuíticas ligadas ao Colégio Jesuítico de Assunção (1598), com a finalidade de converter e reduzir os índios itatines, falantes da língua Guarani. As reduções foram de N. Senhora da Fé e Santiago de Caaguaçu.

A duração da missão do Itatim durou até 1631 e 1659, época em que os constantes ataques das expedições escravistas de paulistas, posteriormente chamadas de bandeiras, concentravam-se na região abaixo do rio Apa, para facilitar a defesa.

Em 1775 foi oficialmente fundado o Forte de Coimbra, para defesa da região. O capitão Caetano Pinto de Miranda Montenegro, governador da capitania de Mato Grosso, fundou em 1778 os alicerces do Presídio de N. Sa. do Carmo do Mondego, mais tarde conhecido como o Presídio de Miranda, de difícil acesso pelos meios precários de navegação pelo Rio Mondego, hoje Rio Miranda. Em 1778, a mando do capitão-general Luis de Albuquerque de Melo Pereira e Cáceres, efetuou-se a ocupação da área onde hoje encontra-se a cidade de Corumbá.

O sudoeste sul-mato-grossense passou a fazer parte do Paraguai que declarou sua independência da Espanha em 15 de maio de 1811.

Em 1856 Brasil e Paraguai puseram termo aos desentendimentos, dilatando a questão por dois anos. Em 1858, a missão Rio Branco, de José Maria Silva Paranhos, Visconde do Rio Branco, foi a Assunção firmar uma convenção que liberava a navegação dos rios Paraguai e Paraná para os navios de guerra do Paraguai e do Brasil. Nessa ocasião, porém, a questão dos limites foi adiada. Estas seriam as últimas negociações entre os dois países, seis anos depois, em 1864, Francisco Solano Lopez, ditador paraguaio, executaria a invasão do território brasileiro.

Um dos primeiros atos da guerra que se convencionou chamar de Guerra da Tríplice Aliança, foi o ataque do exército paraguaio à Colônia Militar de DOURADOS, comandada pelo Tenente Antonio João Ribeiro, que ao sentir que seria chacinado bradou: “Sei que morro, mas o meu sangue e o dos meus companheiros, servirá como protesto solene contra os invasores do solo da minha Pátria!” Fluiu desse evento, o nome da nossa cidade: DOURADOS, em homenagem à Colônia Militar de Dourados.

A guerra começada pelos paraguaios com a invasão do território brasileiro, mais especificamente do Mato Grosso do Sul, trouxe pesadas baixas para os dois lados. Finalmente derrotado em 1870, o ditador Francisco Solano López foi abatido e sepultado em Cerro Corá, a pouca distância da fronteira, perto de Ponta Porã.

A Guerra do Paraguai custou caro ao Brasil em recursos financeiros e ceifou milhares de vidas, contudo revelou a bravura e o patriotismo dos brasileiros e a condução segura e decidida que o Imperador D.Pedro II dedicou ao País, durante todo tempo em que durou a contenda (1864-1870).

O governo do ditador Getúlio Vargas que assumiu o poder depois do golpe em 1930, percebeu que o oeste brasileiro era pouco habitado. O crescimento populacional em Mato Grosso do Sul tão necessário, adveio de campanhas do governo, uma vez que adotou os modelos das cidade de Bata e Hoffig que baseavam-se em populações pequenas, em torno de dez mil pessoas. Com base nessas teorias de “espaço vital”, que afloraram com a II Guerra Mundial, na década de 1940, Vargas ordenou a criação de seis territórios – cinco deles na região oeste – que seriam administrados diretamente pelo Governo Federal.

Assim, em 13.09.1943, foi criado o Território de Ponta Porã, abrangendo os municípios de DOURADOS, Porto Murtinho, Miranda, Nioaque, Bela Vista, Maracaju e Bonito, estabelecendo Ponta Porã como sua capital.

Foi governador do território, que durou três anos, até 18.09.1946, extinto por força da Constituição de 1946, o militar Ramiro Noronha.

Vargas decidiu, com o programa “Marcha para o Oeste”, povoar as áreas de menor densidade populacional do Brasil, notadamente o Oeste ocupado pelo Estado de Mato Grosso que, dividido ao tempo do presidente Ernesto Geisel, gerou o Estado de Mato Grosso do Sul.

O projeto de Vargas visava o assentamento de colonos, que se dedicariam a agricultura – mormente de subsistência – ocupando os “espaços vazios” do Brasil Central. Foi nesses moldes que, em 1943, foi criado o NÚCLEO COLONIAL DE DOURADOS – NCD. O projeto atraiu levas de imigrantes e do trabalho deles originaram as cidades de Fátima do Sul, Glória de Dourados, Deodápolis, Douradinha, Jatei e Itaporã. (Google).

O NCD (Núcleo Colonial de Dourados) contava com cerca de 30.000 lotes, com 250 metros na frente e 1.200 metros da frente aos fundos, com área de 30 hectares cada um. Nessa divisão houve áreas melhores e algumas muito ruins, onde para se obter água era necessário cavar poço com até 60 metros de profundidade, com o uso de ferramentas rudimentares. A produtividade agrícola nesses sítios era sofrível, enquanto nas áreas de terras melhores, a produtividade era boa e a água de fácil acesso.

A área da COLONIA, quase toda coberta por matas, teve de ser derrubada com o uso de machados. As dificuldades eram enormes e muitos colonos, derrotados pelas dificuldades, desistiram da empreita.

Já na década de 1960, o então sul-mato-grossense presidente Jânio Quadros, em apoio aos colonos, editou uma lei que os isentava de apresentar ao Banco do Brasil qualquer garantia para obter um empréstimo, destinado a formação das suas roças. Foi um alento e a CIDADE DE DOURADOS desfrutou do movimento comercial decorrente desse incentivo.

Quando chegamos a esta cidade de Dourados, em abril de 1962, como funcionário do Banco do Brasil, fomos lotados na Carteira Agrícola, onde chegamos ao cargo de sub-Chefe. A corrida dos colonos ao Banco era impressionante. Milhares deles socorriam-se do financiamento e as roças que faziam girava, quase todas, em torno do plantio da mandioca. Só uns poucos, cultivavam amendoim ou algodão, mas a produtividade, de um modo geral era irrisória e os atravessadores ficavam com quase toda ela a título de pagamento de adiantamentos que faziam, escorados na agiotagem. Os financiamentos tinham o prazo de dois anos para o pagamento, mas a maioria não conseguia resgatá-los. Eram tempos difíceis, chovia muito e a cidade de DOURADOS estava sempre atolada no barro vermelho e pegajoso, por onde todos tinham que caminhar.

A energia elétrica era precária, não havia um metro sequer de pavimentação nas ruas, não havia água encanada, não havia telefone, – apenas radioamadores, como o Miguel Amaral e o Dr. Joaquim Lourenço. Muito menos encontrava-se casa para alugar. O comércio era inexpressivo e os produtos caríssimos. As rodovias de acesso a Campo Grande, servida pela Estrada de Ferro ou a que demandava o Estado de São Paulo, não eram pavimentadas e devido as constantes chuvaradas, o tráfego era dificílimo e encareciam as mercadorias e os alimentos de que precisávamos. Materiais para construção não havia quem os vendessem, isto em 1962!

Então, desde os primórdios, quando se ergueram os primeiros ranchos nos prefácios do século XX, no local onde seria a cidade de DOURADOS, até a década de 1960, pouca coisa mudara, havia ainda casarões de tabocas barreadas na Av. Marcelino Pires; uma delas – a maior – estava na esquina com a rua que hoje leva o nome de Nelson de Araújo.

Com o movimento militar de 1964, que liquidou com o sonho comunista da militância, o Brasil e especialmente DOURADOS, ganharam bastante. A ponte do Porto XV no rio Paraná que se arrastava sem data para inauguração, ficou pronta em tempo recorde. A pavimentação da rodovia DOURADOS/ Estado de São Paulo foi implantada assim como a rodovia que demandava Campo Grande; tudo ainda no governo do General Castelo Branco. Tivemos em seguida energia elétrica abundante, telefone e os BNHs implantados na administração do prefeito José Elias Moreira, com a decidida ajuda do Ministro Mário Andreaza, que vieram aliviar o problema habitacional em Dourados.

A cidade, com a Contribuição de Melhoria, que o beneficiário do melhoramento pagava pela pavimentação da via pública defronte seu imóvel, já se apresentava bem melhor.

Mas foi a partir de 1969 que começaram a chegar os primeiros gaúchos. Conhecedores da agricultura mecanizada em grande escala, sabiam também que sem o calcário esta terra (sílico argilosa de alta porosidade) e roxa (vermelha, do italiano russa) não produziria nada.

Adoraram a nossa topografia, levemente ondulada, que facilitaria a mecanização para o plantio e para a colheita, possibilitando a produção de grãos em duas safras anuais. Os campos, onde antes só havia capim barba-de-bode e seriemas, passou a produzir soja e milho, e as boas colheitas enriqueceram os sulistas que aqui aportaram.

A produtividade das terras fez a cidade crescer. Fez melhorar o ensino, melhorar o amparo à saúde, onde pessoas morriam por picadas de cobras, e estabelecer outros melhoramentos próprios de uma grande cidade, porque a essa altura, DOURADOS com uma população de mais de 200 mil habitantes, conta com quatro Universidades e liderara uma região com mais de um milhão de habitantes, que dispõem de rodovias pavimentadas interligadas e de fácil acesso.

O comércio é dinâmico e atualizado. Conta com um gigantesco shopping e dois mega supermercados, além de uma dezena ou mais, de outras instituições menores, todas atendendo a população com presteza, denodo e preços razoáveis.

Além de tudo que temos e podemos contar, há a promessa da implantação de uma Estrada de Ferro que viria ligar DOURADOS e toda região, aos portos de embarque para sua produção, que cresce a cada ano e o escoamento revela-se cada vez mais difícil.

Por fim, promessa também há de melhorar nosso aeroporto, para que receba grandes aeronaves. A propósito do aeroporto, impõe-se registrar, que a Estação de Passageiros construída pelo prefeito José Elias Moreira foi batizada com o nome Manoel de Matos Pereira, enquanto o Aeroporto, de propriedade da União, tem o nome sacramentado por lei, junto ao Ministério da Aeronáutica, como sendo ARLINDO CARDOZO, desde o tempo em que funcionava na hoje Vila Industrial, conforme pesquisa e documentos examinados, reproduzidos e arquivados.

* O autor é membro da Academia Douradense de Letras. (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo.)

MATO GROSSO DO SUL - QUARENTA ANOS - 1977 – 2017

Página 1 de 2
  • mistura
  • Fabio Jr

Entre em Contato

Editor de conteúdo
Clóvis de Oliveira
Email: clovis@douranews.com.br

Rua Floriano Peixoto, 343
Jardim América – Dourados/MS
CEP 79803-050
Tel.: 67 3422-3014
E-mail: douranews@douranews.com.br

Telefones Úteis

Horários de Vôos | Horários de Ônibus