Terça, 03 Julho 2018 16:46

O sonho de Josafah (The Josafah's Dream) Destaque

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Josafah, que também acudia por Jósa, acordou com o sol nos olhos, coçou a cabeça, pensou e pensou; ele tinha um sonho e já estava — concluiu — pronto para realizá-lo. Aproveitaria até o ponto e a vírgula da receita que lhe passou uma cigana, para fazer uma MOQUECA DE BUCHADA DE BODE.

Decidido a materializar seu sonho, pulou da rede, comeu munguzá, encilhou o jegue e partiu para a casa do Quinca Cabriteiro, que ficava a meia légua da sua, numa clareira em meio às touceiras de Jurema. Não disse onde ia à sua Maínha e muito menos ao seu Paínho, que ficaram areados vendo o Jósa partir arretado, no lombo do “Lambido”, nome que a Maínha deu ao jegue de estimação, que vivia na peia para atender qualquer precisão.

O encontro com o Quinca Cabriteiro foi uma festa, mesmo porque o Quinca queria empurrar ao Jósa sua filha como esposa. Assustado, Jósa, sempre escorregadio, esquivava-se da proposta. Explicando a que veio, Jósa disse ao Quinca que precisava comprar um BODE, queria um animal de pouca idade, que nunca tenha fumado e nem bebido, para fazer uma receita que lhe passou uma cigana, enquanto revelava-lhe o futuro, que não era lá essas coisas.

A receita revelada pela cigana dizia: “Tome um bode jovem, que nunca fumou e nem bebeu. Antes de abatê-lo, converse com ele, para que o bicho morra sem trauma. Explique que ele, o BODE, tem futuro brilhante, será lembrado e festejado com o passar dos anos, porque cedendo o bucho para uma moqueca, que atenderá o refinado paladar de pessoas ilustres, entrará certamente, para a história, como o “BODE DA MOQUECA do Josafah!”

Jósa voltou para sua casa com o Bode, um caprino branco, porque achou que bode preto lembra coisas ruins, daquelas que só o Padre entende e exorciza, quando a “coisa” pega!

Surpreendidos — o Paínho e a Maínha — com a volta do Jósa com aquele bode branco, queriam saber o que era “tudo aquilo!”. Pacientemente Jósa explicou que ia fazer uma MOQUECA DE BUCHADA DE BODE, conforme receita que lhe dera uma cigana de nome Krem-Milda, quando a encontrou no mercado, em Fortaleza.

E foi assim que Maínha, Paínho e seus nove irmãos e irmãs depois de ouvirem as explicações, permaneceram em silêncio, assuntando para assistirem a morte do BODE!

Jósa afiou a faca, passou a mão pelo pescoço do bode, conversou com ele, explicou isso e mais aquilo, lembrou-lhe coisas do presente e do passado; da primeira Guerra Mundial e também da Segunda, aquela em que o Hitler quase dizimou os ciganos. Afiançou ao humilde e atento BODE, que nem tudo que reluz é ouro e tampouco não é qualquer Moqueca que aspire ser a “Moqueca de Buchada de BODE”, deliciosa, enigmática e sui generis, claro! — iguaria preparada para deixar abestados os experts e areados os tabaréus.

Desfiando o rosário das benesses que o BODE desfrutaria, fornecendo o seu bucho para a moqueca, dentre elas, a mais importante: o reconhecimento publico de que ele deu sua vida, para que fosse realizada uma receita estrangeira, que aflorava de antiga tradição, transmitida boca-a-boca entre os ciganos, etnia nômade com tronco na Índia, congenitamente premonitória, que chegou ao Brasil e nele alcançou o Ceará, para descortinar o futuro dos nordestinos e a eles ensinar “coisas”.

Os esbanjamentos verbais, para induzir o BODE de que sua morte seria por uma causa nobre, soberba e interessante ao desenvolvimento da ciência culinária regional, que com o tempo alcançaria todo território nacional, empolgando os paladares mais exigentes, e claro, com mais alguns ajustes e aperfeiçoamentos, seria, incontestavelmente, um prato internacional.

O sonho de Josafah — nascido em meio às juremas e os facheiros na caatinga nordestina — que um dia emergiu dos seus pensamentos à sombra de um Juazeiro, do qual lembrava-se apenas dos bandos de arribançans que cruzavam os céus, indicando que o tempo estava mudando. Naquele dia, sentiu que poderia ser famoso, prestigiado e cortejado pela alta sociedade do seu Ceará. Como opção para ser famoso, teria de fazer um prato preparado com buchada — que os nordestinos adoram — mas que fosse de uma maneira inédita, diferente, e isso ele tinha encontrado na receita que lhe dera Krem-Milda, cigana vidente, despachada e arretada, que alcançou o Brasil, onde veio para “ver a sorte” e ensinar como se faz uma moqueca. Uma moqueca de buchada de bode!

Contudo e apesar de tudo, o sentimento nordestino falou mais alto, Josafah apiedou-se do bicho, acovardou-se — NÃO MATOU O BODE e, conseqüentemente, NÃO FEZ a projetada e noticiada moqueca de buchada. Abandonado o sonho, acossado pelo Quinca Cabriteiro que o queria para marido da sua filha, fugiu para S. Paulo, como retirante.

* O autor é membro da Academia Douradense de Letras.
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José Vasconcellos

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