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Sexta, 27 Maio 2016 06:35

Wander Medeiros escreve: Escolhas e renúncias Destaque

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Wander coluna A poetiza Cora Coralina cravou com acerto “mesmo quando tudo parece desabar, cabe a mim decidir entre rir ou chorar, ir ou ficar, desistir ou lutar; porque descobri, no caminho incerto da vida, que o mais importante é o decidir”.

Há quanto tempo temos nos acostumado a ouvir que nosso país passa por uma crise, na política, nas instituições, na escola, na família, na ética, enfim, que por onde quer que você vá, há sempre uma tribulação para ser enfrentada.

Envolto a isso tudo, me pergunto sobre quanto disso pode ser creditado à consequência das minhas escolhas, e creio que você também em algum momento já fez essa reflexão, porquanto logo depois do “decidir” vêm as “consequências”, e quase sempre – senão sempre –, para cada parcela de “escolha” há de existir uma correspondente parcela de “renúncia”.

Pela concepção clássica e filosófica temos a “ética” como a melhor maneira de se viver, Sócrates, acusado de não prestar culto aos deuses atenienses e pretender corromper a juventude, terminou condenado à morte, ainda na cadeia foi tentado por seu amigo Críton para que fugisse, e na opção entre viver como um foragido ou terminar seus dias na terra, de sua “decisão” pelo copo de cicuta resultou um dos principais pilares do Estado moderno, qual seja, de que o respeito às leis feitas para coletividade deve se sobrepor ao interesse particular do indivíduo.

Ulisses em sua odisseia recebeu de Calipso a sedutora proposta de vida e juventude eternas, entretanto retornar para casa e aos braços de sua esposa Penélope foi a sua decisão, ainda que isso igualmente significasse sua decrepitude e finitude. E quantos conflitos familiares poderiam ser evitados ou corrigidos se nossas decisões fossem sempre baseadas no amor.

Da minha experiência pessoal como professor, já há algum tempo decidi que a maior contribuição que posso tentar deixar para meus diletos alunos, que generosamente compartilham comigo suas existências, é a formação de um raciocínio crítico e fundamentado nos pilares da ciência, colhendo como consequência profissionais inteirados com uma percepção de mundo contemporânea e a premente necessidade de transformá-lo para melhor.

No plano mais recente temos contemplado o assombro da sociedade pela revelação pública de indiscrições privadas cometidas por agentes políticos e empresários, e o que só se tornou possível pela decisão corajosa do poder judiciário em enfrentar essas questões que historicamente sempre foram “varridas para baixo do tapete”, ou na linguagem popular, “terminavam em pizza”.

Mas é a dimensão “política” desse estado crítico que mais tem me preocupado ultimamente, em primeiro por ter a certeza de que essa ocupa o epicentro deste contexto tortuoso servindo de dínamo das demais crises, em segundo porque pela nossa forma democrática de Estado, de ordinário não há cargo dirigente executivo ou legislativo que não tenha sido ocupado sem a marca indelével das nossas digitais, isso mesmo meu amigo, querendo ou não, em última análise são as nossas escolhas coletivamente consideradas que tem definido esse atual estado das coisas.

Quando escolhemos o conforto e a comodidade de nossas vidas particulares ao desgaste da exposição pública, a consequência disso é delegar a ocupação do espaço político para aqueles que muitas vezes pretendem fazer disso um trampolim dos próprios interesses e não da coletividade. A escolha do voto sem prévia análise de seus fundamentos ideológicos e partidários, da vida pregressa dos postulantes, dos resultados práticos já obtidos em cargos anteriores, é também a renúncia de podermos cobrar resultados “a posteriori”, afinal se ignoramos conhecer os projetos durante a fase eletiva, da mesma forma com que não nos interessamos “antes”, não vão se importar conosco “depois”.

Neste ano (2016) se aproximam eleições locais para prefeitos e vereadores, os primeiros agentes públicos com quem temos contato no dia a dia, a rigor, aqueles que deveriam ser os mais sabatinados e peneirados em qualquer eleição. Mas quando você “decide” seu voto pela força econômica do postulante, também está renunciando ao correto equilíbrio das contas públicas, porque a lógica monetária é implacável meu dileto amigo, aqui, não se engane, cala fundo a máxima liberal de que em lugar algum “não existe almoço grátis”.

E quando abrimos mão de votar em alguém do nosso distrito, de escolher nosso voto dentre aquelas pessoas que conhecemos, igualmente estamos abrindo mão da intimidade por vezes necessária para sensibilização do agente público, sobretudo naquelas hipóteses de casos urgentes ou de abandono.

De igual modo, quando não dispomos do nosso tempo para professar voluntariamente nossas ideologias e escolhas – muitas vezes, e atualmente, ao alcance de um simples clic –, estamos capitulando no palco do espaço político, assumindo deliberadamente o papel de coadjuvantes de uma encenação que passa a ser tomada exclusivamente por candidatos e assessores “profissionais” regiamente remunerados por sua militância, cenário esse que jamais contribuíra para superação desse contexto crítico, afinal esses mesmos atores se retroalimentam da manutenção desse sistema.

E ainda poderíamos observar inúmeros outros exemplos desse paradoxo, sendo certo que em última análise a grande questão que nos é colocada nessa quadra da “crise política” é justamente a certeza de que quaisquer que sejam nossas “decisões”, elas implicarão necessariamente em “consequências” que poderão ser decisivas para superarmos de vez essa problemática, ou terminarmos nos afundando nela ainda mais.

Então me diga dileto amigo, quais serão suas “escolhas” e “renúncias” para outubro próximo?

*O autor é Advogado, Professor da UEMS e Procurador de Entidades Públicas do MS (Este endereço de email está sendo protegido de spambots. Você precisa do JavaScript ativado para vê-lo. – facebook: Wander Medeiros)

Última modificação em Sábado, 18 Junho 2016 12:52
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