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Quinta, 17 Maio 2018 10:14

Diferença de acolhimento a migrantes é abordada em Jornada de Psicologia

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Psicanalista e psicólogo clínico Gabriel Inticher Binkowski, durante palestra na Unigran Psicanalista e psicólogo clínico Gabriel Inticher Binkowski, durante palestra na Unigran Assessoria

A relação terapêutica, a qual o profissional busca estabelecer no encontro com seu paciente, é um tanto quanto complexa. E, em se tratando de pacientes oriundos de diferentes países, sujeitos migrantes, esta relação se torna ainda mais difícil. No intuito de pensar métodos de intervenção e o acolhimento dessa comunidade, o psicanalista e psicólogo clínico Gabriel Inticher Binkowski vem tralhando em duas linhas de pesquisa na USP (a Universidade de São Paulo): Clínica com Migrantes e a Relação entre Psicanálise e Religião.

O pesquisador, pós-doutorando no Laboratório Psicanálise, Política e Sociedade da USP, esteve na Unigran para ministrar palestra e minicurso durante a XVI Jornada Acadêmica e VI Mostra Científica, que neste ano abordou o tema ‘Psicologia e Direitos Humanos’. Binkowski falou sobre ‘Imigração, Clínica Transcultural e a Noção de Hospitalidade em Psicanálise e no Político’ e ‘Psicanálise e a Atualidade da Religião na Clínica e na Política’.

Residente em Saúde Mental em Porto Alegre, Gabriel morou na França, onde fez o mestrado e doutorado pela Université Paris 13 Sorbonne Paris Cité, lecionou em três universidades diferentes e trabalhou em hospitais, tanto com populações adolescentes, quanto com migrantes.

Ao pensar e no sentido de acolher pacientes que são religiosos no trabalho psicoterápico, o psicanalista menciona como as religiões têm mudado e se transformado ao longo dos séculos, especialmente no caso da Europa. No trabalho com pacientes evangélicos na França, a maioria imigrantes, notou que esses indivíduos acham nas religiões um tipo de suporte emocional, psicológico e existencial para tudo que eles tinham vivido em suas migrações.

Na palestra, Gabriel Binkowski relatou as diferenças que encontrou entre a França e o Brasil no acolhimento de migrantes, como isso aparece na política e na história, e na formação do país. “Na França, existe uma preocupação histórica, desde o século 19, em pensar atendimentos psiquiátricos e psicológicos para populações que não são francesas originais, que desenvolvem esse tipo de psiquiatria voltada para o sofrimento dos colonizados (expressão chamada pelos franceses) e isso acaba tendo efeitos na política francesa atual de acolhimento e integração das populações migrantes”, afirma.

Esse acontecimento aumenta muito depois da colonização francesa, em que várias populações de países como Argélia, Marrocos, Tunísia, Senegal, Costa do Marfin, começam a migrar para França por motivos tanto políticos, quanto econômicos. “Essas pessoas chegam de locais em conflito. Existe uma preocupação na França em que tipo de acolhimento se dará e os serviços de saúde e educação têm que pensar em quais são as diferenças dessas populações e como pode integrar essa diferença no nosso tipo de trabalho”, garante Binkowski.

Para exemplificar, o psicólogo cita o fato de como trabalhar com atendimentos psicológicos com populações migrantes que têm problemas que muitas vezes são próprios ao tipo de cultura delas ou do tipo de experiência que estão tendo na migração: conflitos entre casais, quando a mulher vive uma vida muito mais europeia, quer trabalhar, participar da sociedade civil, de uma forma que não seria possível em sua cultura de origem, gerando ainda, problemas nas crianças e adolescentes.

No Brasil, o pesquisador aponta que existe uma ideia de que “somos um país de imigrantes, temos uma democracia racial, de receptividade, mas notamos que há segregação racial, segregação quanto à diferença de classe, certos preconceitos e opiniões muito já estabelecidas e arraigadas na sociedade sobre populações negras, indígenas, certas populações internacionais, como imigrantes que têm chegado ultimamente do Haiti, da África, da Venezuela”.

Segundo o palestrante, “as populações de imigrantes que chegam ao Brasil nos últimos anos têm ficado a esmo, eles não têm tido nenhum tipo de acolhimento dos serviços públicos e essa é uma questão com a qual eu tenho trabalhado. O acolhimento de imigrantes tem ficado a cargo de associações humanitárias ou religiosas”.

O trabalho do psicólogo

“As populações de migrantes se confrontam muito rápido com algumas questões que estão presentes na sociedade brasileira: racismo, preconceito, fato de que [o Brasil] é um país em que tudo é voltado para uma minoria, intolerância religiosa, entre outros. Nós como psicólogos, profissionais que trabalham com a subjetividade, nos confrontamos com isso. A nossa escuta é viciada, o nosso tipo de compreensão desses fenômenos é um pouco viciado pelas nossas heranças teóricas e culturais”, enfatiza o pesquisador.

Para Gabriel Inticher Binkowski, o papel do psicólogo é pensar, de alguma forma, e nos seus diferentes tipos de práticas, em como essas pessoas que estão vindo para o Brasil sofrem efeitos das suas migrações, do que elas viveram nos seus países de origem, que tem suas especificidades culturais, sociais e religiosas.

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